Terças da Saúde – O olho

Continuando minha saga de organizar meu blog, escolhi terça-feira como o dia da saúde. Não tem nenhum motivo especial. Poderia ser qualquer dia, mas segunda já é um dia pesado demais e os outros dias já estavam ocupados. Aparentemente, terça-feira também é o dia que os brasileiros mais pesquisam sobre saúde nas redes sociais, mas não sei por quê.

Hoje escolhi falar sobre o olho. Normalmente o tema é saúde mental, mas percebi que quase nunca escrevo sobre o olho e isso é estranho. Escolhi ser oftalmologista porque o olho é o órgão mais interessante do corpo. Nos meus anos de consultório, já expliquei o olho de diversas formas. Já comparei ele a uma máquina fotográfica, a uma pia, a uma televisão… Tudo em medicina depende. A explicação sobre o olho também. Mas depende do quê? Esta é uma ótima pergunta, cuja resposta já faz parte da explicação, então vamos lá!

O olho como máquina fotográfica:

Esta é a minha favorita! É a explicação mais lógica, racional e científica do olho. Para capturar a imagem, ele funciona exatamente igual a uma máquina fotográfica. De maneira simplificada, a máquina tem a lente, o orifício por onde entra a imagem, a câmara escura e o filme. O olho também. Nosso conjunto de lentes é composto por: filme lacrimal, córnea e cristalino. O orifício é a pupila, o filme é a retina. Para formar a câmara escura temos a coróide, que contém melanina e a esclera, que é branca, mas é opaca e não a luz passar.

Foto por Pixabay em Pexels.com

Com esse modelo, explicava sobre os óculos, por exemplo. Os óculos são necessários quando nosso conjunto de lentes não consegue formar a imagem na retina com foco. A função zoom do olho é feito pelo cristalino, que muda de forma quando somos jovens, mas vai endurecendo ao longo do tempo e a partir dos 40 anos, ele já não tem mais elasticidade. Essa é a hora que o braço fica curto e as pessoas tem a chamada presbiopia, a dificuldade de ler decorrente da idade.

Com ele também era possível explicar porque não adianta trocar de óculos quando a alteração era na retina. A retina é o filme do olho, a parte mais nobre. É onde a imagem é formada e de lá viaja até o cérebro. Uma retina danificada, seja por diabetes, descolamento, degenerações, cicatrizes etc não forma imagem, independente da lente. Porque se o filme da máquina está danificado, não adianta trocar a lente. A imagem continua ruim.

Por fim, com o modelo da câmera, podemos explicar porque a visão embaça quando temos blefarite. Blefarite é, como o próprio nome diz, uma inflamação da pálpebra. Mais precisamente, é uma inflamação das glândulas da pálpebra, que levam a um aumento da secreção oleosa da lágrima. Se colocarmos óleo na frente da lente, a imagem embaça.

O olho como pia:

Já o segundo modelo é mais complexo. Dificilmente alguém pensa no olho como pia. Ele só serve para explicar uma doença: o glaucoma. A doença é uma das principais causas de cegueira irreversível no mundo. É uma neuropatia óptica, que tem como principal fator de risco a pressão intraocular alta. A pressão do olho depende basicamente de dois fatores: produção e escoamento de humor aquoso.

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O humor aquoso é o líquido que preenche a parte anterior do olho. Ele é transparente e, por isso, vamos imaginar que ele é água. Em uma pia, você tem a torneira, que coloca água, e o ralo, que drena a água. No olho, nós temos o corpo ciliar, que produz o humor aquoso e o trabeculado, que drena o humor aquoso. Portanto, o corpo ciliar é a torneira e o trabeculado é o ralo. Eu sei que esse modelo é mais difícil de visualizar, mas nunca achei algo melhor.

O olho como televisão:

Por fim, temos o último modelo. O primeiro é excelente, o segundo é ruim, e o último é um meio-termo. Ele também só serve para uma situação: quando o problema está no nervo. O olho captura a imagem, mas quem enxerga é o cérebro. Portanto, se existe um problema na comunicação olho-cérebro, a imagem não chega, mesmo que o olho esteja normal. Algumas doenças podem afetar só o nervo, como tumores, aneurismas, derrames etc. Nesses casos, é como se você tivesse uma TV nova, mas não tivesse ligado na tomada. A TV pode não ter nenhum problema, mas ela não funciona sem eletricidade. Essa “eletricidade” vem do cérebro e esse é o problema em doenças do nervo ou do cérebro que afetam a visão.

Foto por KoolShooters em Pexels.com

Espero que tenham gostado! Até a próxima terça da saúde!

Narração do texto

A Face Obscura de Livia

Capítulo 5 – A Alta

Fiquei ao mesmo tempo grato e irritado com a atitude nobre do professor de psiquiatria. Ele sempre tinha um ar tranquilo, um sorriso no rosto, uma atitude gentil. Eu queria saber qual é a dele, porque não acreditava nessa bondade toda que ele tentava demonstrar. Preferiria que ele tivesse rido de mim naquele momento, mas me pareceu que ele ficou com pena. E eu odiava que as pessoas sentissem pena de mim.

Encontrei Dr. Carlos na manhã seguinte, como de costume, na sala de reuniões. Havia me ocorrido que ele talvez me mandasse ir falar com ela sozinho a partir daquele dia, já que já tinha ganhado a aposta, mas ele continuou enchendo três copos de café e indo comigo para nossa sessão matinal com Livia. Não compartilhei com ele o meu pensamento, pois, não saberia como encará-la sozinho depois da última conversa. E apesar da minha antipatia com o psiquiatra, reconhecia que ele sabia conduzir bem as conversas com a paciente.

Ao entrarmos no quarto, me surpreendi com a nova versão de Livia. Eu sempre a vira de cara limpa, com a camisola do hospital, sonolenta e desleixada, mas naquele dia estava com olhos bem marcados e esfumados com sombra preta, que, junto a seus cabelos pretos soltos, faziam um grande contraste com sua pele pálida. Para completar, ao invés da camisola branca do hospital, estava usando calça jeans preta e camiseta preta. No geral, ela estava sexy, mas intimidadora, como se estivesse avisando para pensarmos melhor antes de nos aproximarmos dela. Assim que Dr. Carlos lhe cumprimentou ela disse, sem nem olhar para mim:

– Doutor, quando vou poder ir embora? – seu tom de voz também era novo aos meus ouvidos, com um toque de determinação e irritação, um pouco menos doce que o tom que ela, em geral, usava.

– Eu ia mesmo discutir isso com você, Livia. Acho que está evoluindo bem, e não estamos a mantendo aqui por acharmos que traz risco à própria vida. Mas estamos ajustando suas medicações e os efeitos colaterais são comuns. Por isso, acho importante que você esteja sendo assistida nesse processo – após uma pausa Dr. Carlos continuou – você mora com alguém?

– Sim, moro com meus pais.

Fiquei surpreso com esse novo fato. Se ela morava com os pais, por que não recebeu nenhuma visita até agora? Já fazia praticamente uma semana que ela estava internada, e quando chegou seu estado de saúde era grave. O professor continuou:

– Você acha que eles poderiam ficar com você enquanto estamos ajustando as medicações?

– Fisicamente? Aliás… – Livia pensou um pouco e continuou – não, acho que não. É melhor eu fazer isso aqui mesmo – por um momento ela pareceu olhar para o nada, para o passado e sua expressão ficou mais deprimida e cansada. Mas ela logo voltou a olhar para Dr. Carlos, disfarçando sua tristeza.

– Tudo bem, então. Prometo que você não vai ficar aqui para sempre.

Lá eu via, de novo, aquele sorriso triste.

– Você não se dá bem com eles?

– Não muito. Mas é sempre assim, pais e mães só mudam de endereço, né?

Havia um tom de sarcasmo ali, mas foi tão sutil, que fiquei sem saber se tinha imaginado ou se estava mesmo ali. Jamais imaginaria naquele momento o quanto Livia teve que se segurar naquela frase, o quanto era mentira. Talvez porque não quisesse ou não estivesse preparada para se abrir ainda para nós, mas hoje acho que, no fundo, ela não queria que ficássemos preocupados.

– Seus pais não vem te visitar? – Dr. Carlos perguntou.

– Não, eles são muito ocupados e eu mando notícias por mensagens, dizendo como andam as coisas – outra mentira de Livia que eu descobriria mais tarde.

Os dias foram passando, e eu acompanhava os pacientes da enfermaria psiquiátrica chegando, indo embora, alguns ficando. Na verdade a maioria ficava, ficava e ficava. Mas apesar de gostar mais de especialidades mais práticas e objetivas, acabei de acostumando com aquele fluxo mais lento do lugar.

Ainda tomava café todas as manhãs com Dr. Carlos e Livia e, aos poucos, acho que ela foi se sentindo mais confortável perto de mim. Já não me ignorava completamente e olhava nos meus olhos quando eu falava, sem demonstrar o ódio que eu havia visto antes. Voltou também a usar a roupa da enfermaria, o que lhe dava um ar menos intimidador.

Um dia, vi Livia no corredor da enfermaria, parada em frente a uma grande janela de vidro. Era a primeira vez que ela saia do quarto, e não foi muito longe. Parou ali na primeira janela que encontrou. Uma outra paciente, com transtorno bipolar, se aproximou dela animada e expansivamente, chamando-a e querendo abraçá-la. O gesto, porém, acabou assustando Livia, que voltou mais que depressa ao seu quarto, fechando a porta atrás de si. Achando a cena curiosa, entrei no quarto de Livia e perguntei o que ela estava observando pela janela. Ela me respondeu:

– A padaria. Faz tempo que não como um doce de padaria.

– Você quer comer um? O que quer?

Os olhos dela se arregalaram com minha pergunta, um misto de surpresa e alegria passaram pelo rosto, e imagino que ela chegou rapidamente a conclusão de que seria melhor responder antes que eu mudasse de ideia.

– Uma tortinha de morango!

– Tá bom, vou buscar uma para você – respondi, nem eu mesmo acreditando na onda de bondade repentina que me afligia.

Mas quando ela me disse “obrigada” olhando nos meus olhos, percebi que estava sendo sincera e me senti imediatamente melhor, mais tranquilo, como se ela pudesse emanar calma através de meu corpo. Quando voltei com a torta em mãos e a entreguei, ela me agradeceu novamente e me senti até feliz, inexplicavelmente. Havia algo em seu olhar que me dizia que ela estava realmente grata e nada mais. Não sabia explicar o que acontecia, mas não era como outros me olhavam, e aquilo me intrigou.

Acontece que aquele evento me deixou tanto feliz quanto angustiado. Havia julgado mal a paciente e a tratei de forma fria, nem quis conversar com ela no início, pois já tinha aceitado o que o emergencista havia dito como verdade. Além disso, fui prepotente com o professor, achando que sabia mais do que ele. Todos aqueles eventos fizeram com que me sentisse mal, me mostravam como eu nada sabia e aquilo me assustava. Gostaria, no fundo, de me desculpar e fazer melhor, mas, ainda assim, não era capaz de desenvolver um pedido de desculpas sequer. E por outro lado, queria evitar ao máximo aquele lugar e aquela paciente, que escancaravam o que eu não queria enxergar.

Claro que Dr. Carlos jamais me permitiria faltar às sessões matinais de Livia e eu continuava com um sentimento ambíguo. Não era de todo ruim as conversas que tínhamos com ela, mas passavam longe de serem agradáveis. Ela passara a ser sincera demais, crua demais e não parecia filtrar as palavras. Ela não tentava desviar do assunto quando questionada sobre algo delicado, sempre respondia honestamente, sem esconder o que pensava, apesar de que eu imagino que ela sabia que algumas coisas que dizia eram peculiares.

Certo dia, reuni minha coragem e perguntei a ela o motivo de ter se cortado tantas vezes. Livia me respondeu que fez aquilo pois estava sofrendo e que queria melhorar a dor. Disse que a dor física era mais suportável que a psicológica e que ela conseguia aguentar melhor daquela forma. O que me surpreendeu foi a naturalidade com que ela me respondeu, como se estivesse falando sobre algo trivial, não sobre algo claramente doloroso. Mas ela era assim, apesar de seu tom de voz baixo e doce, suas palavras eram frias e cruas.

Eu comecei a achar que ela tinha traços masoquistas, afinal ao invés de se cortar, ela poderia beber, drogar-se, ou sair para as baladas quando estava triste. Mas isso era o que eu fazia, e o que eu achava que era o “melhor”. Um pouco de diversão para esquecer temporariamente os problemas. Só que Livia não bebia, não fumava, não usava drogas e nem ia para balada. Na verdade, ela quase não saía de casa, como eu fui descobrindo nas conversas. Vivia quase que isolada da sociedade.

Dr. Carlos sempre fazia questão de discutir os casos da enfermaria conosco e, claro, Livia era um dos casos que discutíamos frequentemente. Não entrarei em detalhes sobre as medicações que introduzimos, ajustamos e retiramos; primeiro porque não me lembro mais; e, segundo, não vem muito ao caso. Basta saber que ao fim da internação, ela estava com as medicações ajustadas.

Nas nossas discussões de casos havia de tudo um pouco. Os pacientes tinham diagnósticos variados e, para ser sincero, o caso de Livia não era um dos mais interessantes. Ela sofria de depressão clássica, seu humor não se alterava subitamente e ela nunca estava envolvida em nenhuma discussão acalorada entre os pacientes que, vez ou outra, deixavam a enfermaria caótica, porém mais divertida. Os casos desses pacientes eram mais floridos, seus diagnósticos mais desafiadores e seus tratamentos… Bem, seus tratamentos eram, para o dizer o mínimo, difíceis.

Alguns ali achavam que conseguiam nos enganar, escondendo seus comprimidos na boca para depois jogá-los na privada. Outros achavam que trabalhávamos para a NASA e que estaríamos envenenando-os pouco a pouco, pois havíamos descoberto que eles eram, na verdade, alienígenas. Outros ainda tiravam a roupa e falavam as maiores obscenidades cada vez que passávamos. Livia, porém, não fazia parte de nenhum desses tipos de pacientes. Ela não tinha alucinações ou delírios. Ela não tentava nos enganar quanto às medicações. Ela fazia exatamente o que pedíamos, só se recusando a sair um pouco do quarto e interagir com as outras pessoas. 

Uma vez Dr. Carlos quis fazer um bingo na enfermaria. A maioria dos pacientes gostou da ideia e quis participar. Mas Livia não apareceu, pelo menos, não até ser quase arrastada pelo psiquiatra. Ela até se sentou lá, mas não quis participar. Ficou lendo tranquilamente, mesmo no meio daquela bagunça, como se vivesse em um mundo separado.

Quando as pacientes que estavam sentadas na mesma mesa que ela tentaram iniciar uma conversa vi que Livia respondeu-lhes com um sorriso, o mesmo sorriso triste que ela usava conosco. Mas deve ter dado uma desculpa qualquer, pois depois continuou lendo seu livro, na sua própria bolha. A concentração dela era inabalável. As enfermeiras muitas vezes tinham que arrancar o livro das mãos de Livia para fazê-la comer e dormir. Ela frequentemente se esquecia do mundo exterior.

Havia outras pacientes com depressão ali internadas, mas a maioria delas tinha uma aura muito pesada. Eu me sentia exausto quando falava com elas, como se minhas energias fossem sugadas, assim como os “dementadores” sugam as almas das pessoas. Não conseguia entrevistá-las todos os dias, assim como fazia com Livia, pois tinha a sensação de que morreria se tentasse. Nesse aspecto, ela era diferente. Sentia curiosidade sobre a vida dela, e o que a levara até ali. E não me sentia drenado quando conversava com ela, talvez por ela usar aquele tom de naturalidade mesmo quando o assunto não era leve.

Percebi, ao longo dos dias, que estar perto dela já não era me causava mais repulsa. Na verdade ela me transmitia algo parecido com serenidade. O tempo, para ela, parecia correr diferente do meu, que estava sempre com pressa. E seu ritmo me fazia desacelerar um pouco, nem que fosse por alguns minutos do dia. Era estranho. Normalmente quando eu viajava para fora de São Paulo, acaba me irritando com a velocidade mais lenta das pessoas. O ritmo de vida no interior me angustiava, pois eu sempre queria tudo para ontem e estava sempre correndo e sempre atrasado. Mas Livia não me causava essa mesma reação. Ao lado dela, me sentia mais calmo.

Demos alta para ela cerca de três semanas após sua internação. No dia, o psiquiatra lhe deu as receitas e perguntou como ela gostaria de ser acompanhada depois. Como ela não fazia nenhum acompanhamento especializado prévio, quis manter seguindo com Dr. Carlos, que me olhou conspiratoriamente, como quem me lembrava da aposta. Ele avisou a paciente que eu a acompanharia também e que, por isso, suas consultas deveriam ser fora de horário comercial, para que eu também possa atendê-las. Ela não viu restrições quanto a isso, já não sei se para meu gosto ou desgosto, mas assim ficou combinado.

Narração do Capítulo 5

Segundas crônicas

Segunda-feira é um dia pesado. Pelo menos, assim é para mim. Já começo a sofrer no domingo. Quando acordo segunda-feira, a primeira coisa que cruza minha mente é “por quê, Deus?” Mas não penso isso tentando achar um culpado, é mais um pedido de ajuda. Semelhante a “dai-me paciência, Senhor”. Inclusive esse é o pedido que mais tenho feito a Ele.

Quem me conhece, sabe que, na verdade, não me falta paciência. Eu tenho até de sobra. O problema é que eu sou daquelas pessoas que guardam, vão juntando pequenos acontecimentos e, quando explodem, é melhor sair de perto. Eu sei que isso é ruim, mas até hoje, não consegui mudar completamente. Melhorei bastante, mas não 100%.

Uma coisa extremamente comum para mim é ouvir lamentos das pessoas. Não é exatamente meu trabalho, mas faço isso sempre. Eu não me importo em ouvir, mas existe um problema. Tenho uma filosofia de que todo problema tem uma solução. Se algum problema não tem, ele deixa de ser problema e passa a ser um fato imutável, que pode ser desprezível ou não, mas não adianta se preocupar com algo que foge à solução. É assim que levo minha vida e sou extremamente prática quando se trata de resolução de problemas. Procrastinar a resolução não é benéfico para ninguém, por mais difícil que a solução seja. Esse é o problema quando ouço problemas alheios. Naturalmente quero resolver o problema. Mas nem todo mundo quer resolver o problema.

Para alguns, o problema é “inevitável”, mas eles sentem necessidade de reclamar por reclamar. Para outros, a solução do problema é tão difícil que preferem continuar com ele. E ainda existem aqueles que procrastinam a resolução. Não importa a categoria, todos os acima me incomodam. Tenho vontade de dar um chacoalhão na pessoa e dizer “só resolve! Se não for resolver, para de reclamar!”

Só que não posso fazer isso… Por isso, peço a Deus por mais paciência. Claro que algumas situações são “solucionadas” só com lamentos ou choro, como uma perda, um rompimento, um luto. Destes, não me importo de só ouvir. Mas outras situações não. A maioria dos problemas que ouço são coisas absolutamente solucionáveis, basta querer. Só que milagres não existem. Não existe agradar todo mundo, não existe não dizer não nunca. A maioria de nós vive escravo dessas duas ideias impossíveis. É triste, mas uma prisão invisível, de onde somente a própria pessoa pode se libertar. A escolha de sair ou não é individual e toda escolha traz consequências. Muitas vezes, é assustador, mas gostaria muito que mais pessoas pudessem escolher a própria liberdade.

Por fim, para deixar a segunda-feira mais leve, trago uma música que costuma me acalmar bastante: View do Shinee.

Narração do texto

A Face Obscura de Livia

Capítulo 3 – Bolinhos de Chuva

No dia seguinte, apesar da minha incerteza sobre o comportamento nada convencional de Dr. Carlos, levei os bolinhos pela manhã. Encontrei-o, na sala de reunião, enchendo alguns copos com café e lendo uns artigos. Quando me viu, sorriu e me perguntou:

– Trouxe os bolinhos?

Respondi que sim com a cabeça, mas perguntei:

– Por que o senhor não perguntou mais nada ontem? Ela parecia mais aberta após sua conversa dos bolinhos.

O psiquiatra me olhou nos olhos, e eu vi algo que parecia pena ali, o que me incomodou. Mas, cortando o breve silêncio, Dr. Carlos disse:

– Aqui não existe pressa, Arthur. Não estamos perguntando a ela se está com febre, vômitos, ou dor. Aqui, perguntamos coisas muito particulares e íntimas, não podemos esperar que eles se abram tão facilmente. Afinal, não existe nada mais difícil que olhar para nossas próprias sombras – pegando os copos com café, 

ele foi saindo da sala de reunião, acrescentando – Vamos, antes que o café esfrie.

Livia já estava acordada, lendo um livro, quando chegamos. Ao ver-nos, ela fechou o livro e esperou, com uma expressão desconfiada, mas curiosa. Dr. Carlos lhe entregou o copo de café e eu abri o saco de bolinhos. E pude ver que ela relaxou um pouco, novamente abrindo um sorriso triste, e disse:

– Não achei que fosse mesmo trazer bolinhos de chuva – seu tom de voz era baixo, apenas suficiente para nós dois escutarmos.

– É claro, eu sempre cumpro minhas promessas, minha cara – Dr. Carlos deixou de fora o fato de que fui eu que levei os bolinhos. Mas não é como se eu esperasse algum reconhecimento.

– Por favor, coma. Imagino que faz algum tempo que não come.

Livia agradeceu e começou a comer os bolinhos. Dr. Carlos também se serviu e me indicou para que eu também comesse. Olhei para ele surpreso, havia sido ensinado que não se come na frente do paciente. Mas como ele mesmo estava comendo, imaginei que não seria repreendido por isso e peguei um bolinho. Após um tempo, Livia finalmente falou:

– Minha avó me fazia bolinhos de chuva quando eu era criança. Eles tem um sabor nostálgico.

– Quantos anos tinha na época? – perguntou Dr. Carlos.

– Seis – respondeu. E após uma pausa acrescentou, com uma mudança no tom de voz, que ficara mais triste – acho que desde então nunca mais comi.

Ela sorriu, ao finalizar a frase, novamente aquele sorriso, leve e triste. O psiquiatra continuou:

– Ela faleceu?

Livia não tirou os olhos dos lençóis que a cobriam quando respondeu:

– Não, ela está viva. Só não fez mais bolinhos de chuva – seu tom parecia querer dizer que o assunto havia acabado e eu não pude evitar ficar curioso para saber o que aconteceu então, se a avó estava viva, por que em todos esses anos não fez mais bolinhos para ela?

Dr. Carlos mudou de assunto, perguntando-a como estavam seus ferimentos, se estava com dor. Ela respondeu que estava tudo bem, não estava com dor, de forma quase automática. O psiquiatra se virou para mim e perguntou:

– Ela está com remédio para dor na prescrição?

Eu rapidamente peguei a prescrição dela e não havia nenhuma analgesia ali, o que achei estranho, afinal, era de praxe deixar já prescrito, ainda mais em uma paciente que estava com vários cortes. Olhei para Dr. Carlos, e respondi-lhe que não. Ele só me deu um sorriso e disse para a paciente:

– Você é muito forte para aguentar tão bem a dor.

Livia arregalou um pouco os olhos, surpresa com o comentário, mas só durou uma fração de segundo, e sua expressão já estava passiva novamente. Não respondeu nada, apenas encarou Dr. Carlos e eu, nenhum sentimento visível em sua face. Ele quebrou novamente o silêncio e disse, já se levantando da cadeira:

– Bem, caso sinta dor, não hesite em nos avisar – e saiu do quarto, sendo seguido por mim de perto.

Enquanto andávamos de volta até a sala de reuniões, vários pensamentos iam surgindo em minha mente. Como é a relação entre ela e a avó? Por que ninguém de sua família veio vê-la? Como é que ela não está sentindo dor? O psiquiatra se sentou, gesticulou para que eu também sentasse, e interrompendo meus pensamentos, disse:

– Eu não acho que ela tentou suicídio.

– Bem, então o que acha que aconteceu? – perguntei.

– Isso, caro Arthur, cabe a você descobrir.

Não sei bem se consegui disfarçar minha cara de petulância. Não gostava daquela enfermaria, menos ainda daquela paciente, e não concordava com as condutas pouco convencionais de Dr. Carlos. Como futuro médico, queria salvar vidas, então para que ajudar alguém que nem queria viver?

Mais tarde, passei pela porta de seu quarto e vi que Livia estava dormindo, com o livro no colo. Tentei de onde estava ver o título do livro, mas estava muito pequeno e distante, porém consegui ver a figura da capa, o auto-retrato de Van Gogh. Imaginei então que o livro seria sobre a vida do pintor, que morrera após atirar em si mesmo. Ainda no corredor da enfermaria, tive um estalo e me senti como o próprio Dr. House em sua série. Procurei Dr. Carlos e disse, confiante:

– Ela tentou suicídio sim, professor. – ele apenas me olhou com desinteresse, e eu continuei – ela tem lido um livro sobre a vida de Van Gogh, o pintor que se matou. – vi sua expressão se transformando lentamente de desinteresse para deboche.

– E?

– Professor, é como a onda de suicídios que aconteceu após o lançamento do livro “Os Sofrimentos do Jovem Werther”. Ela deve ter lido como Van Gogh faleceu e se sentiu estimulada a fazer o mesmo.

Dr. Carlos suspirou e eu não poderia imaginar o que ele disse em seguida:

– Muito bem, vamos fazer uma aposta, então. Se ela realmente tentou se matar, você ganha a aposta, eu te dou dez e você nem precisa mais aparecer por aqui. Porém, se ela não quis se matar, eu ganho a aposta, e você vai ter que continuar acompanhando essa paciente, mesmo depois que sair do estágio, até o final do seu curso médico.

Hoje posso confessar que fiquei preocupado com a tal aposta, mas, na ocasião, meu ego falou mais alto e eu a aceitara, antes mesmo que pudesse processar as informações. Afinal, fui sentindo minha raiva e frustração subindo, a medida que Dr. Carlos me debochava. Quem ele achava que era? Eu era o melhor aluno da minha turma, tinha as melhores notas e todos me admiravam. Dos professores, só ouvia elogios, meus colegas me invejavam, e eu era o único filho do titular da cirurgia torácica. Mas o médico na minha frente não parecia pensar claramente. Ele era apenas uma imitação malfeita de Path Adams, aquele palhaço. Ou, era isso que eu pensava na época.

Nós combinamos de sempre irmos falar com a paciente juntos, para que nenhum dos dois pudesse induzi-la a falar o que queríamos ouvir. E assim, todos os dias, visitávamos a paciente pela manhã e tomávamos café com ela.

Narração do Capítulo 3

A Face Obscura de Livia

Oi, pessoal! Agora, os capítulo de A Face Obscura de Livia estarão no blog. Espero que possa ajudar alguém.

Capítulo 1 – O Presente

Livia havia terminado de pintar um belo quadro, um campo de tulipas de diversas cores, ao estilo impressionista de seu pintor favorito, Monet. Assim que dera seus toques finais, porém, ela o cobriu com tinta escura, negra, deixando apenas as bordas ainda visíveis da obra original. Eu ficara chocado com sua ação repentina de destruição, mas ela apenas se virou calmamente e disse:

– Este é você.

Eu somente a encarei atônico, sem que nada me ocorresse para respondê-la. Como se já esperasse minha reação, ela não disse mais nada e me deixou ali, sozinho com sua versão de mim. Examinei a tela mais de perto, tentando captar os detalhes das poucas tulipas sobreviventes, mas a visão do lado obscuro me penetrava a alma. Como aquilo era minha representação? Ela dissera que me daria uma tela de presente, feita sob medida. Porém, o que ela queria realmente me dizer?

Fiquei semanas sem vê-la, tentando entender mais a mim mesmo do que a ela e fui recordando os momentos que convivemos juntos, transcrevendo-os para que minhas ideias ficassem mais claras e meus pensamentos, organizados. Por fim, resolvi procurá-la. Contudo, relatarei aqui, com o máximo de precisão que minha memória me permitiu, o que se passou nos anos anteriores.

Narração do Capítulo 1

Capítulo 2 – O Início

Eu era ainda estudante de medicina quando a conheci no hospital. Ela havia causado múltiplos ferimentos na face interna da coxa, sendo encontrada inconsciente depois. Fora trazida às pressas, tratada na emergência, e após ser estabilizada, fora transferida para a enfermaria psiquiátrica, onde estava sendo meu estágio de internato. Eu havia ido buscá-la na sala de emergência, quando o plantonista me disse:

– Essa aí tem que ficar de olho, viu, porque ela quer morrer.

Notei, em seu tom, uma profunda irritação, além da preocupação. Ele continuou:

– Ela não disse uma palavra desde que chegou, nada. Se recusa a nos ajudar.

Eu a transferi, passei o mesmo aviso ao psiquiatra da enfermaria e fui vendo outros pacientes. Ao fim do dia, como de praxe, sentamos numa sala de reunião e discutimos os casos, mas naquele dia a discussão fora um pouco diferente. Dr. Carlos Foley, o psiquiatra chefe, me perguntou sobre a paciente que eu havia transferido.

– A que tentou suicídio? – perguntei sem muito interesse.

Dr. Carlos me olhou por uns instantes antes de responder com outra interrogativa.

– Acha que ela tentou suicídio? – havia em seu tom uma sugestão de que eu estava errado.

– Bom, ela se cortou várias vezes até ficar inconsciente. Estava tentando morrer – respondi com o tom mais confiante que pude.

– Você conversou com ela? – dessa vez seu tom era calmo.

– Não, ela não disse uma palavra desde que chegou ao hospital.

– Humm… Então, você não tentou falar com ela?

Obviamente, Dr. Carlos já sabia a resposta daquela pergunta, seu tom não era acusatório, mas sim, calmo. Eu não havia nem tentado conversar com ela, pois já imaginei que ela não iria falar comigo, mas não pude responder nada ao chefe, que interpretou meu silêncio como uma confissão. Então, ele se levantou e disse:

– Vamos lá, Arthur, vamos conversar com a paciente.

Segui Dr. Carlos até o quarto em que Livia estava. Ela dormia quando entramos, mas ele me fez acordá-la. Eu pensei “mas aí é que ela não vai mesmo querer falar conosco”, mas ela abriu os olhos, nos viu e esperou, nos olhando como uma criança entediada. Não virou a cara, nem se cobriu com os lençóis, como eu imaginara. Apenas esperou pacientemente. 

Dr. Carlos tomou a dianteira e se apresentou, além de me apresentar, mas ao invés de perguntar sobre seus ferimentos, ele começou a falar sobre o tempo, que estava chuvoso, bom para comer bolinhos de chuva com canela. Livia acenou com a cabeça um sim e abriu um leve sorriso triste. Então, ele lhe perguntou:

– Quer comer bolinhos de chuva?

Livia arregalou os olhos e ouvimos sua primeira palavra desde que havia sido internada:

– Sério?

Dr. Carlos sorriu e respondeu que sim, traria no dia seguinte. Ela o olhou desconfiada, mas o psiquiatra deu de ombros e disse: 

– Sim! Até amanhã!

Assim, saímos do quarto, e esse foi meu primeiro contato com Livia. Claro que Dr. Carlos virou-se para mim e disse sorrindo:

– Você ouviu, traga bolinhos de chuva amanhã! Com canela.

Narração do Capítulo 2

A incrível arte da retórica

Estava vendo uma live ontem e acabei pensando sobre o tema. Existem pessoas com um talento especial do qual sinto inveja: falar bonito sem falar nada.

Essas pessoas são extremamente cativantes, falam bem, tem boa postura. Gostam de falar sobre elas mesmas sem que pareça tão óbvio. Exaltam-se de forma tão natural, que não soa arrogante. Às vezes, usam expressões assim: “tive uma ideia muito simples, mas que ninguém tinha pensado antes…” ou “eu fiz algo extraordinário? Não, eu fiz o que achei que era necessário…”

O espectador é facilmente enganado e passa a acreditar que está ouvindo uma pessoa fora de série, não um arrogante disfarçado. Assim, ela passa a alimentar esse ego já inflado de forma mascarada. Uma dica é: sempre anote os pontos importantes de uma aula ou palestra, mesmo que você seja daquele tipo de gosta mais de ouvir e não de anotar. Anote, pois muitas vezes a palestra é maravilhosa, mas quando você olha no seu caderninho, percebe que não anotou nada, porque não houve conteúdo de fato.

Conteúdo não é exaltar feitos alheios, não é uma história pessoal. Conteúdo é algo que possa te ajudar, algo que acrescente. Não é a história, mas pode ser a moral dela. Se a palestra foi boa, você vai ter anotado várias palavras-chave. Nem sempre as boas lives tem tanta audiência ou tantos elogios quanto essas que nada dizem, mas precisamos saber diferenciar. Precisamos ter crítica. O ser humano pensa, logo existe, certo? Não nascemos somente para ouvir. Precisamos pensar sobre o que ouvimos, o que lemos.

A retórica nasceu no século V a.C. na Sicília, mas ganhou fama com os sofistas na Grécia Antiga. Desde o princípio, o objetivo da retórica era o de persuadir a audiência. Existe ciência por trás dela. Pode ser aprendida, desenvolvida, aprimorada. Alguns se tornam tão mestres na arte que conseguem realmente falar por 2 horas sem dizer nada útil. Talvez esta seja a maior prova de sucesso retórico.

Por que tenho inveja disso? Sempre fui ensinada que se você não sabe o que dizer, o melhor é ficar quieta. Não fui introduzida à arte da enrolação. Não é raro ver essas pessoas em posições de poder ou de liderança, comandando gente com muito mais conhecimento técnico e/ou teórico. É esse tipo de situação que me desestimula, que me deixa pensando por que as coisas funcionam dessa forma, por que valorizamos um talento vazio. Então a imagem das redes sociais me vem à mente e lembro que não é somente esse talento vazio que valorizamos, infelizmente.

Narração do texto

Como se escreve um livro — Filipa Fonseca Silva

Muitos têm a ideia de que, para escrever um livro, o autor se senta a uma mesa, contempla o horizonte e começa a despejar palavras ao sabor da inspiração. Não é verdade. Escrever é um trabalho árduo, muitas vezes frustrante, raramente pago e que requer algum método e disciplina. A ideia geral até pode surgir […]

Como se escreve um livro — Filipa Fonseca Silva

A Península Ascariana

Olá! Saindo do forno o mapa da península ascariana, palco do próximo livro, Os Jogos Bárbaros.

Como prometi no Instagram, contarei a história de cada um dos brasões.

Estou ansiosa para ver o livro pronto!

E vocês? O que acharam do mapa?

Super Junior

Olá, pessoal! Decidi me organizar e agora quina-feira será o dia do K-pop na Escritoranda. E não tem como falar sobre K-pop sem nem ao menos citar Super Junior. Eles são considerados os “pais” dos outros grupos e fazem parte da segunda geração de idols. E o que é mais impressionante: ainda estão ativos.

O grupo estreou em 2005 pela SM Entertainment com 12 membros (LeeteukHeechulHan GengYesungKanginShindongSungminEunHyukDonghaeSiwonRyeowook e Kibum). Em 2006, eles adicionaram mais um integrante, o Kyuhyun. Porém, o grupo não tem 13 membros. A verdade é que é difícil saber quantos membros têm o Suju, como é mais conhecido. Isso porque alguns saíram, outros entraram em hiato e, desde 2010, os membros tem cumprido o serviço militar obrigatório. Atualmente, todos já cumpriram, mas ainda é difícil saber ao certo a quantidade de membros. É preciso estar atento aos comunicados da SM, porque existe uma diferença entre hiato e saída do grupo. O hiato é quando o membro “dá um tempo”, longe das câmeras, como acontece com Sungmin. Já a saída é definitiva, como aconteceu com Han Geng, Kangin e Kibum.

Mas por que existe o hiato? Basicamente dois motivos: serviço militar obrigatório e “escândalos”. Alguns escândalos são contornáveis, mas na Coreia a tolerância com os idols é bem menor do que no Brasil. Por exemplo, Sungmin é casado. O único membro da formação atual que é casado. E este é exatamente o motivo de seu hiato. As ELFs, como são chamadas as fãs de Suju, não gostaram desse relacionamento e do casamento “repentino”. Existe uma relação doentia entre os idols e seus fãs, que alimentam a ideia de que eles tem que permanecer eternamente disponíveis e solteiros. São poucos os que conseguem ter um relacionamento e não serem punidos pelas fãs. Um exemplo que deu certo foi o Chen do EXO, grupo da mesma empresa do Suju. Mas isso é a exceção. A regra é que eles não podem se relacionar.

E por que eles aceitam? Basicamente no Super Junior, as fãs tem poder, literalmente. O fã clube comprou parte das ações da SM e, com isso, elas realmente podem decidir muita coisa. O grupo é poderoso dentro da empresa, consegue fazer muita coisa que os demais não conseguem, mas eles precisam seguir as regras das ELFs. Assustador?

Por outro lado, hoje em dia, os membros já ganharam bastante dinheiro e não precisariam mais continuar nessa indústria se não quisessem. Eles continuam, porque existe a contrapartida. Só um dos membros do Suju já era de família rica antes de fazer sucesso, o Siwon. O restante precisou batalhar para chegar onde estão hoje. Os comebacks que envolvem todo o grupo são raros, mas o Suju conta com inúmeras sub-units. As sub-units são formadas por membros do Super Junior, mas não pelo grupo inteiro. São tantas que é quase impossível conhecer todas, então vamos às mais famosas: D&E e K.R.Y. A D&E é formada pelos membros Donghae e Eunhyuk e é mais focada em dança. Já a K.R.Y. é formada pelos main vocals Kyuhyun, Ryewook e Yesung e é conhecida por cantar baladas.

Talvez esteja se perguntando por que eles formam as sub-units, não é? A resposta é bem simples: ganhar mais dinheiro. Não é que eles não ganhem o suficiente, mas os ganhos do grupo são divididos entre todos os membros, que são muitos, como deu para perceber. Trabalhando em uma sub-unit garante uma renda ainda maior, porque tem menos gente com quem dividir.

Além de tudo isso, eles também trabalham de forma individual. O trabalho pode ser bem variado. O Yesung, por exemplo, tem sua carreira solo como cantor bem estabelecida. O Leeteuk, que é o líder do grupo, trabalha muito como apresentador, que eles chamam de MC. O Heechul faz parte do elenco fixo de Knowing Bros, um programa de variedade. O Eunhyuk trabalha como apresentador do Weekly Idol. Já Siwon atua em novelas e filmes, além de ser modelo. Isso é só parte dos trabalhos extras do Suju.

Eles também criaram a Super TV, que faz o mesmo estilo do BTS Run e acredito que seja o futuro de todos os grupos de K-pop. Ter seu próprio programa de variedades é algo que o BTS fez e faz magistralmente, e todos os grupos tem copiado o modelo. O Suju, claro, não poderia ficar de fora. O programa pode ser assistido pelo app do V Live, com legendas em inglês. Existe uma coisa muito legal no Super Junior, que não se encontra em todos os grupos. Talvez por serem de uma geração mais antiga (todos os membros tem mais de 30 anos), eles não seguem os mesmos padrões que vemos em grupos jovens. Não são todos magros e bonitos. Não estou dizendo que são feios, mas nem todos tem o padrão coreano de beleza. Porém, tudo isso é compensado pelo humor. Eles se especializaram em programas de variedade e humor. Sabem prender a atenção da plateia e são praticamente comediantes.

É essa soma de talento, esforço, dedicação e estudo que leva o Super Junior a um patamar diferenciado. Não é à toa que são considerados pais dos idols. Eles abriram o caminho do sucesso e se atualizam constantemente. Esse é o segredo para continuarem ativos até hoje. Não se acomodam, não ficam satisfeitos. Sempre estão buscando novas maneiras de se reinventar. Por fim, deixo a música Sorry, sorry, o maior hit do grupo.

Narração do texto

Histórias do divã – a mala

Olá! Bem-vindo(a) a Escritoranda!

Nessa série Histórias do divã, vou contar um pouco sobre as minhas sessões de terapia, porque tem bastante coisa interessante.

Hoje, vou contar a história da mala. Talvez eu tenha algum problema com malas de fato, mas eu percebi que foi uma daquelas vezes em que me senti uma alienígena na terapia. Bom, o que aconteceu foi que meu pai me colocou dentro de uma mala quando eu era criança. Não era exatamente uma brincadeira, era um “treinamento”. Segundo ele, eu precisava aprender a sair de uma mala ou de um porta-malas, caso algum dia alguém me sequestrasse. A ideia parecia boa, mas conforme eu contava para a psicóloga, percebi que algo estava errado naquela história.

Tudo começou por causa de um sonho que tive, em que meu pai me coloca dentro de uma mala para me proteger, pois estávamos fugindo de alguns atiradores. Enquanto contava o sonho, lembrei da ocasião em que fiquei presa em uma mala na vida real. Provavelmente, era por isso que não tinha parecido tão estranho entrar em uma mala no sonho. O que me chamou atenção era que meu pai não se esconde junto comigo na mala. Só eu me escondo e fico sozinha no compartimento de carga do avião. A reação da minha psicóloga foi perguntar “como assim?!” e a minha foi de pensar “humm… falei alguma coisa muito estranha…”

Isso acontece vez ou outra na terapia, mas fiquei em dúvida sobre o que era estranho: o sonho ou a realidade. Resolvi contar do episódio em que fui colocada dentro de uma mala para aprender a escapar, caso isso acontecesse na vida real. Minha psicóloga pareceu um pouco chocada com a situação “extrema” a que fui submetida. Para mim, porém, era normal. Na realidade, até me sentia grata por isso. Afinal, eu via como um treinamento. Claro que eu não consegui sair da mala e fiquei desesperada para sair. Mas eu também já fui colocada em porta-malas e acho que consegui sair sozinha uma vez. Tudo isso era parte do treinamento.

Até então, nunca tinha pensado que não fazia sentido. Mas percebi que não fazia a medida que fui falando, porque, por mais que eu tentasse explicar, algo parecia errado. Ao mesmo tempo, eu não sabia o que era, mas ela me perguntou “se você realmente tivesse sido sequestrada quando era criança, o que você acha que ia conseguir fazer contra adultos?” A resposta que cheguei foi “nada”. Mesmo que eu conseguisse sair de uma mala ou do porta-malas, ainda teria outro problema: lidar com os criminosos. Mas eu não conseguiria fazer nada contra eles, então o treinamento tinha sido “inútil”.

Uma frase me marcou: “são os adultos que salvam as crianças e não as crianças se salvam sozinhas”. Concordei, pois fazia sentido, mas não era assim que eu tinha aprendido. Na minha educação, a criança se salva sozinha, pois os adultos são fracos demais para salvá-la.

Narração do texto
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